segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Só mais uma história boba de amor


Ela era só mais uma garota boba apaixonada. Gostava de um carinha aí.

Gostava mesmo. Pra valer. Ela sonhava com ele. Imaginava assistir o seu filme favorito com ele uma porção de vezes. Eles tomariam café juntos. Ele tiraria uma foto dela e ia guardar na carteira. Ela ia chamá-lo de antiquado, mas ele não ia ligar. Ele a amava.

Onde seria o pedido de namoro? No Morumbi? No Belas Artes? Na livraria? Talvez o pedido nem existisse. Eles ficariam juntos e pronto. Ninguém sabe quando começou, muito menos se termina. Não, não termina. Ela acredita no tal do "felizes para sempre".

Mas nada disso é real. Ele é só um amigo distante. Eles conversam pela Internet sobre o vestibular e sobre falta de assunto. Ela adora as piadas dele. Ele ama o modo como ela consegue ser engraçada sem nem tentar. Seria lindo. Se fosse algo de verdade, realmente seria.

Um dia, aparece uma atualização na página dela: Fulaninho está em um relacionamento sério com beltraninha. Aquilo já é demais. Nas suas fantasias, um dia ele ia buscá-la na sua futura faculdade. Num futuro próximo, eles iriam fazer aquele mochilão pela Europa. Ele ia rir todas vezes em ela se empolgasse demais quando começasse a falar dos monumentos históricos. Ela ia rir todas às vezes em que ele falasse do Fabuloso Destino de Amélie Poulain quando passassem por Paris. Mas ele estava estava num relacionamento sério. E não era com ela.

Ela sofreu. Pra valer. Cada sonho derreteu junto com seu cérebro. Ela perdeu a cabeça. Até o café de sua mãe não era mais tão gostoso quanto antes. O brilho que existia em seu olhar quando ela falava sobre os seus filmes prediletos sumiu. Ela já não se via mais na personagem principal. Ela deixou de sonhar.

Até que um dia, cansada de tanto chorar, ela abriu o Word e começou a escrever. Era um roteiro de um filme. Já que ela ia fazer Cinema na faculdade, porque não começar logo? Escreveu por horas sem fim. Não parou até chegar no The End. E guardou aquilo consigo.

Os anos se passaram, eles deixaram de se falar e acabaram perdendo contato. Nenhum dos dois tinha notícia um do outro. Ela terminou a faculdade de Cinema. No fim do curso, conseguiu grana pra gravar aquele filme. Aquele roteiro, no qual ela investiu cada gota de sangue que escorreu do seu coração. Deu certo. O longa fez sucesso nos cinemas independentes. Até passou no Belas Artes, com o qual ela tanto sonhou.

O filme participou de um festival de cinema. Ela era concorrente pela primeira vez. Se orgulhou disso. Pela primeira vez, ela se sentiu forte o bastante para viver algo sozinha. Até que no momento das entrevistas, todo o seu passado veio à tona: ele estava lá, com alguns fotógrafos e um gravador na mão. E estava do mesmo jeito de antes, apenas com mais cara de homem, com barba inclusive, do jeito que ela sempre sonhou.

Ele queria fazer jornalismo E fez. E a entrevistou. Os dois se reconheceram. Ele desejou boa sorte. Ela sorriu e os olhos dele brilharam. Após assistirem os longas, ele a chamou para tomarem alguma coisa por ali. Ela pensou.

O sentimento ainda existia. O coração dela ainda pulava. Ela não o havia esquecido. Mas não se sentia mal por isso. Porque todas essas coisas podiam ser as mesmas, porém ela estava diferente. Agora ela era mulher. Era forte. Não precisava se rastejar pra ninguém. Ela chamava atenção sendo ela mesma. Ela era feliz sem precisar ouvir a risada dele.

"Não, obrigada! Meu filme favorito vai passar na TV. E eu não posso perder por nada nesse mundo."

Ela era só mais uma garota apaixonada.

Boba?
 
Sem chance.