terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Onde fica a sua Pasárgada?


Sempre gostei muito de ler. Fui uma das primeiras pessoas da minha sala a aprender a ler e escrever e sempre me amarrei numa livraria ou biblioteca. Decidi na 1ª série que ia ser escritora e com uns 13 ou 14 anos escolhi o curso da faculdade: Jornalismo. Maria Tereza e livros é amor à primeira vista. Mas confesso que nunca fui fã de poemas. Bem, não era. Até o dia que me apresentaram ao Manuel Bandeira.

Em todas as aulas de Português da minha vida e futuramente nas de Literatura, quando havia poemas no meio das explicações e exercícios, meu corpo até doía. Eu simplesmente não conseguia entender porque um dito cujo preferia escrever de maneira subjetiva e implícita o que estava sentindo ao invés de ser claro e objetivo através de um conto, uma crônica ou um romance. Ou sei lá, dá um fora nessa mulher que não te ama e para de ser trouxa, rapaz! A vida é mais que um rabo de saia. Sim, sou de Humanas, mas meu coração funciona como o de alguém de Exatas, chora reaça.

E minha vida foi caminhando assim até o último ano do Ensino Médio, quando meu excelentíssimo professor de Português, Paulinho (um beijo pro meu amô baiano, tô com saudades!), começou a explicar sobre o Modernismo aqui no Brasil e nos contou a história de Manuel Bandeira.

Seu Manuel foi um cara que teve uma vida bem complicada. Logo cedo, descobriu que tinha tuberculose, que era tipo a AIDS de alguns anos atrás naquela época. Por isso, ele teve que viver isolado no interior do Rio para não passar a doença pra ninguém e pra não piorar seu estado de saúde também. O tenso é que toda a sua família também estava doente. Mas no fim das contas todos morreram antes e ele só deixou a vida bem velhinho, com 82 anos de idade. Porém, a doença o privou de muitas coisas: Manuel não teve muitos amigos, não casou, não teve filhos. Em sua vida adulta, a Literatura era sua válvula de escape. E é nesse ponto que quero chegar.

Manuel Bandeira não foi um poeta revolucionário, comunista e militante, como foram muitos dos escritores modernistas brasileiros. Pra mim, ele é o que mais destoa dos autores desse período. Os poemas dele demonstram um desejo de fuga, de refúgio, mas de maneira bem diferente dos escritores do Romantismo. E foi assim que surgiu a Pasárgada.

"Vou-me Embora pra Pasárgada" é um poema que demonstra na sua essência o que Manuel vivia. É um desabafo cheio de angústia e dor, como um grito no meio do silêncio. Ei mundo, dói muito querer viver e não poder! Pra quem não sabe, Pasárgada foi um país imaginário criado por ele, onde todos os seus desejo, fetiches e fantasias aconteciam, já que na vida real a doença o impossibilitava.

Me lembro bem de quando o Paulinho leu (recitou, whatever) pra gente na sala. Foi como um choque, um sussurro, um banho de chuva. Aquele poema me arrepiou dos pés ao último fio de cabelo da cabeça. Pela primeira vez, eu consegui sentir a dor do poeta, consegui sentir na carne exatamente o que ele sentia no momento. Imagino que Manuel Bandeira escreveu esse texto num momento de desespero total, como um último sopro de vida. Ele devia tossir muito e, eu não sei se tuberculose causa dor, mas se causa, devia estar doendo pra caramba. Junte isso a dor do isolamento que ele viveu e, tã-dã, Vou-me Embora pra Pasárgada.

A verdade é que eu gostei tanto desse poema pela identificação. Eu sinto que posso lê-lo em qualquer momento da minha vida, estando triste ou feliz: eles sempre vai me dar um frio na espinha. Pasárgada é um lugar fictício, mas eu acredito muito na sua existência. E sei que para cada um de nós, ela é algo diferente.

Eu visito a minha Pasárgada quando escuto as músicas dos Arrais e a trilha sonora de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Eu a vejo quando assisto Tudo que é Sólido Pode Derreter e Across The Universe. Eu a sinto quando dou risada com meus pais e meu irmão. Eu sei que estou lá quando oro e quando abraço meus amigos. E tenho a certeza de sua existência quando escrevo ou quando leio os poemas do Manuel Bandeira.

Ele já morreu, mas espero do fundo da alma que tenha encontrado sua Pasárgada. Onde quer que esteja, receba meu abraço e o meu muito obrigada, porque pela primeira vez eu me senti compreendida por um poeta. Ah, e agradeço tabém por ter despertado meu gosto pela poesia. Drummond, Castro Alves e Leminski mandam um humilde salve.

E é claro que eu sou muito mais bonita que o porquinho-da-índia que você ganhou aos seis anos (entendedores entenderão). Ah, seu Manuel, você é um fofo! Obrigada!

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